terça-feira, 19 de julho de 2011


Era sexta-feira. Aquelas sextas que ela não queria nada além de ficar em casa debaixo das cobertas, mas se ele não estivesse mais ao seu lado, esquentando-a, não fazia sentido ficar lá. Beatriz era uma mulher bonita, meio descuidada, mas ainda bonita. Sua vida era normal como a vida de toda desempregada moradora da cidade grande sustentada pelo resto de dinheiro que ainda tinha na conta do banco. Estou falindo, pensou, mas não me importo. Na verdade, não era só com isso que Beatriz não se importava. Ela não se importava mais com nada.
Há dois anos, numa noite fresca de setembro, ela encontrou Túlio em uma praça deserta. Cigarro?, ela ofereceu. Ele aceitou e eles ficaram os dois em silêncio, contemplando as estrelas e a lua, que era a única fonte de luz naquele lugar. Ela, sem saber por quê, deitou a cabeça nos ombros dele e ficou ali até quase o dia amanhecer. Túlio bebia. Conhaque barato que Beatriz relutou em beber, mas por falta de outra coisa, bebeu até se embriagar.
Não se sabe como, nem por quê, os dois se levantaram juntos, olharam um para o outro e perceberam que os dois não eram lá as pessoas mais limpinhas, mais cheirosas e mais legais da cidade, mas tudo bem. Melhor um que nenhum. Foi quando Túlio perguntou com sua voz rouca de quem não falava nada há um bom tempo: No meu apartamento ou no seu? No meu, respondeu Beatriz. E assim, foram os dois em silêncio. Não aquele silêncio constrangedor que atingem casais que só querem a companhia do outro por prazer. Era um silêncio gostoso de ser ouvido. Um silêncio que significava mais que uma ou duas palavras.
Foi uma boa noite aquela e eles tiveram muitas e muitas depois desse dia. Até ontem, quando Túlio levantou da cama, barba por fazer, nu e sem dizer palavra vestiu suas roupas, escovou os dentes e saiu do apartamento. Beatriz sabia que ele não voltaria. Não houve lágrimas, não houve pedido de volta. Não houve procura nem espera. Mas dor apertou seu coração e ela sabia que deveria seguir em frente, afinal de contas, ele nem era tanta coisa assim.
E hoje é sexta feira. Beatriz sente falta de Túlio, mas mesmo assim colocou sua blusa de banda, calça jeans rasgada e all star, mexeu em sua bolsa, tirou um cigarro e saiu de casa, sabendo que encontraria outra pessoa, em alguma outra praça, com um perfume diferente. Talvez ele tenha whisky dessa vez, pensou Beatriz animada. E partiu, para achar o novo amor da sua vida.

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