quarta-feira, 27 de julho de 2011


Antes só do que mal acompanhado, é o que dizem por aí. Mariana, ou só Mari, como gostava de ser chamada não acreditava nisso. Era uma daquelas pessoas que diriam, com certeza, que acreditavam no amor e que ele é a maior força do mundo. Além disso, cada um tinha uma cara metade, e se não ela demorasse a aparecer, as pessoas mais compatíveis surgiriam para lhe fazer companhia. Era a teoria dela. Ninguém nunca disse que ela estava certa. Mas também não disseram que estava errada e cá entre nós, isso já é alguma coisa.
Nada de romantismo se entende o que quero dizer, ela só acreditava que o amor era a coisa mais importante no mundo. E eu acreditei nisso por um tempo, se querem saber.
Eu a conheci há alguns anos. Ela, pobrezinha, garotinha adorável estava doentinha em sua casa. Garotinha não, quase mulher. E uma linda mulher, se me permitem dizer. Dizem que era inteligente também. Aqueles olhos, embora jovens, mostravam grande saber e inteligência.
Parece que no fim, eu acabei me apegando a ela. Ela me lembrava uma senhora bondosa que eu conheci há muitos muitos anos. Amélia, seu nome. Gentil como Mari, bonita também. Só que, digamos, mais vivida. Era uma grande mulher. Fez grandes coisas enquanto esteve viva, isso eu posso garantir. Mas sabe como são as coisas, todos têm a sua hora e Amélia teve que partir, então. Mas ela foi feliz. O momento dela foi sereno. Com um sorriso no rosto ela me acompanhou, como se fôssemos velhos amigos. Gostei dela, e acho que ela, lá no fundo, deve ter gostado um pouquinho de mim também. A maioria reclama. Sou muito odiada. Mas até que no fim das contas, a gente se acostuma. A palavra que muitos temem dizer, mas eu a sou, pura e simplesmente. Com um pouco de solidão, também. Aquela que Mari dizia não existir.
O momento dela foi sereno como o de Amélia que eu descobri ser, por intermédio de uma foto no criado, ser avó de Mari.

Quando chegou a hora eu apenas olhei para ela. Nos olhos. Profundamente. E senti todo aquele amor que ela dizia existir. Se houve alguém que eu amei, foi Mari. E me doeu muito ter que fazer o meu trabalho. Ela sorriu para mim. Quem nesse mundo sorri para mim? Quem sorri diate da Morte? Mas Mari sorriu e foi aquele sorriso me fez continuar o meu trabalho, pois eu fui destinada à isso e teria que faze-lo até o fim dos tempo, onde eu serei a vencedora de tudo. Segurou minha mão e com um esforço na voz me perguntou:

- Tudo isso é um sonho? - sua voz conseguia ser mais doce que sua mão, ou seu olhos me olhando com ternura.
- Receio dizer que não, minha querida. - tentei esboçar um sorriso, ou fazer uma cara alegre. Mas os muitos anos que passei com a mesma expressão de medo e pavor não me fizeram muito bem. Ela não se importou.

Dado nosso curto diálogo, ela soltou minha mão e eu quebrei o protocolo do meu serviço de nunca deixar uma vítima fugir. Mas ela não estava fugindo, eu sabia, só estava resolvendo uma coisa de última hora. Às vezes eu deixo alguns que me comovem dizer alguma coisa final para seus parentes. Ou deixar um recado para a pessoa amada. Mas só às vezes, senão os boatos de que a Morte está se tornando sensível demais começam e teriam de me substituir. E isso demandaria um trabalho enorme.
Eu sou uma boa pessoa, ou coisa, como queira me chamar. Só quero fazer meu trabalho bem feito. Isso não te agrada, provavelmente, mas é o que tem que ser feito, não? É um trabalho digno, acrescento.
E no fim das contas, Mari não chamou ninguém. Não gritou, como muitos fazem. Não chorou. Não implorou. Apenas escreveu.
Era uma coisa que ela gostava de fazer, aquela menina mulher. E eu guardo suas últimas palavras comigo, para me lembrar de que ainda existe coisa boa nesse mundo. Que ele não deve ser destruído. Muito menos subestimado. Há gente boa, como Mari. Espero levá-las tardiamente, para que possam fazer alguma coisa nesse mundo.

Suas últimas palavras. As primeiras de muitas que espero ainda ver e ouvir, um dia, quem sabe.

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